quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Os ataques contra Lula da Silva e o maniqueísmo político das elites

                     Lula da Silva, de Operário e Líder Sindical à Presidente

         Os ataques e revelações pitorescas produzidas pelo Ministério Publico contra os ex-presidente Lula revela, sem sombras de dúvidas, a tentativa de desconstruir sua imagem, atacar o PT e, de quebra, banir todos movimentos e organizações de esquerda no Brasil. As encenações de cunho político, sem nenhuma base jurídica, comprovam o golpe realizado em aliança dos grandes empresários, a mídia golpista e o judiciário.
Esses ataques têm uma clara tentativa de reduzir o debate nacional a quem concorde ou discorde se Lula e o PT são corruptos, trazendo-o para um campo de disputa que favoreça quem sempre esteve no poder. As elites nunca gostaram de um ex-operario na presidência da república e também do processo político que ele dirigiu, mas, sem dúvida, Lula e o PT governaram com essas elites durante todos os anos que estiveram à frente do poder executivo.  Obviamente, ele não era mais um político à margem do empresariado. Desde 2002, quando assinou uma Carta aos Brasileiros, e governou conciliando com interesses dos ricos mais reacionários e com os partidos historicamente vinculados a eles, sua imagem se descaracterizou.
Quando se poderia imaginar que na nossa república um operário seria presidente? Sua desconstrução e ataques estão partindo  daqueles que mais ganharam com os governos petistas. Todos os programas sociais seriam insuficientes para comparar com os imensos privilégios e riquezas dos setores industriais, agroindustriais, construção e serviços. Em certa ocasião o próprio ex-presidente afirmou: “Esses empresários deveriam acender um vela todos dias e agradecer o governo do PT. Nunca eles ganharam tanto dinheiro como agora”.
Foi assim, num passe de mágicas que Lula e o PT  saíram de uma relação de amor para uma relação de ódio com as classes empresariais brasileiras. Mais do que isso: agora a luta é do BEM (anti-PT) contra o MAL (PT e LULA). Uma drástica modificação que comprova que as elites não querem qualquer projeto de conciliação para os próximos anos. Tiveram essa experiência, não tinham como controlá-lo por inteiro, e agora, a realidade de crise os obrigam a tomarem uma nova perspectiva.
A questão essencial é a seguinte: o PT abriu mão do seu programa, governou com os ricos empresários, e, ao mesmo tempo, ampliou diversos direitos sociais, mas agora já não pode mais ser uma opção política. Os mesmos que o abraçaram agora lhe esfaqueiam pelas costas.
Entretanto, a miopia daqueles que atacam Lula e o PT reside na pretensa ideia de que podem eliminar todo um processo histórico de lutas por direitos. Mais do que isso, nesse maniqueísmo reducionista anti-Lula, pretendem enterrar os sonhos da esquerda brasileira acreditando que os mesmos se reduzem ao PT e seu maior representante. Ledo engano! Todos os dias nascem novos lutadores sociais que abraçam a bandeira de um mundo novo. Ao mesmo tempo, aqueles que continuam se apegando ao velho, continuam crendo na cantilena de união entre trabalhadores e patrões não verão o sol se abrir e, com ele um novo dia, num país livre e soberano.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Quem escreveu a carta da Operação Zelotes?

       Pra quem não sabe a operação Zelotes (nome em homenagem ao movimento do século I daqueles que zelam pelo nome de Deus), que investiga crimes de sonegação fiscal de dezenas de grandes empresas e envolve também o Sr. Augusto Nardes do Tribunal de Contas da União, responsável pela desaprovação das contas de Dilma, surgiu a partir de uma carta anônima. Isso mesmo! Um envelope pardo deixado na sede da polícia federal contendo nomes, datas, empresas e possíveis valores de propina para funcionários do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), órgão responsável por analisar pedidos de revisão de cobranças tributárias.
            Nunca se cogitou investigar quem deixou a carta. Provavelmente um arrependido, ungido pela santa consciência ou enganado dentro do próprio esquema, quando outros mais espertos lhe ‘passaram a perna’. Ora, pela cor do envelope e a analise física de todos os papeis somente Sherlock Holmes seria capaz de descobrir quem tomou essa decisão.
            Essa cartinha, tal qual aquelas escritas para o papai Noel, conseguiu apontar junto com o desenrolar das investigações o envolvimento de empresas de grande porte: Bradesco, Itaipava, Gerdau, Banco Safra, RBS (afiliada da rede globo no Rio Grande do Sul), Ford, Mitsubishi, Anfavea (Associação dos Produtores de Veículos), Santander, e mais outras tantas. Os valores podem passar de R$ 20 bilhões sonegados da Receita Federal. O esquema era quase o mesmo para todos: contratavam uma empresa, escritório de advocacia, contestavam os valores pagos ao fisco e depois subornavam os funcionários do CARF através dos advogados. Algo absolutamente seguro até chegar o ministro da presidenta, hoje deposta, que deixou a Polícia Federal receber ‘envelopezinho de denuncias’ e investigá-las.
            De qualquer forma, temos mais uma importante CARTA para nossa história. A impressão que a intenção foi nos salvar, pelo menos um pouco, dessa corrupção desenfreada dos empresários.
Segue abaixo uma pequena parte de outra, escrita bem antes, mas talvez não na mesma direção, nas palavras de Pero Vaz de Caminha ao encontrar nossas terras, os povos originários e recomendar ao Rei de Portugal: “E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar- 1 de maio de 1500”.

CORRUPÇÃO E MERCADO, SIMBIOSE PERFEITA NA ATUALIDADE

"gente sem terra
corrupção, desemprego:
mundo em guerra"
Carlos Seabra

             




 Está mais do que claro com os atuais casos de corrupção (somados aos demais de toda a nossa história) que apenas uma pequena parcela se beneficia do 'roubo aos cofres públicos'. Essa parcela é, sem dúvida, a mesma que mantem intacto um conjunto de privilégios sociais e os mantem utilizando tal expediente político. No caso da operação Lava-Jato, que investiga fraudes na Petrobras, os principais beneficiados foram empreiteiros que enviaram para fora do país aproximadamente R$ 5 bilhões. Os demais recursos foram distribuídos entre partidos e dirigentes da empresa. Como quase nunca eles (empresários) são investigados e presos, é normal que se desvie a atenção das pessoas para impedir que o povo brasileiro perceba o quanto às grandes empresas privadas são as principais responsáveis por todo o mar de lama existente.
            Para ir à raiz desse problema, é preciso, pois, se perguntar: o que motiva toda essa corrupção? Como ela se mantém? Ela sempre existiu? Quais suas características? Tentemos esclarecer.

ESSÊNCIA DA CORRUPÇÃO

            Assim Lord Acton1 chegou as causas da corrupção:
           "O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus."
            Pra ele, o poder e o homem quando se misturam gera corrupção. E a maldade do homem é a responsável pela corrupção. O homem corrompe o poder porque é da sua natureza. Pensamento compartilhado também por Nicolau Maquiavel2:
             “Tudo se degenera, se sucede e se repete fatalmente”  e “Mas a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela”.
            Ora, uma explicação absolutamente simplista para o problema. Para ambos, qualquer exercício de poder seria corrupto. Em resumo: O homem é corrupto porque o poder o corrompe. O poder é corrupto porque o homem o corrompe. Não passa de um argumento puramente circular, como “a arvore dá frutos porque é arvore e essa é sua característica”.
            Bastaria que apenas um dos poderosos não se corrompesse para cair por terra tais argumentos. Fato esse que está repleto na história, mas que ninguém acreditaria. É como se já estivesse arraigada no imaginário dos seres humanos. Alguém diria: “Certo, esse não é corrupto, tão logo se investigue se descobrirá a verdade”. Não passa de especulação idealista uma conclusão como essa. Entretanto, para se negar, descobrindo que não é essa a causa da 'corrupção do poder' há a necessidade do estudo da história da própria humanidade.
            A corrupção nem sempre existiu. As comunidades primitivas não viveram a corrupção. Isso porque a 'comunidade' era sempre mais importante que seus habitantes. A moral era baseada no seguinte principio: “a vida serve para preservar a comunidade”. Nesse estágio, no qual o homem e sua individualidade era até mesmo subestimada3, os interesses comuns estavam acima dos interesses pessoais. Era desonroso 'vender' ou se beneficiar de conquistas sociais. No entanto, em virtude da elevação do nível de desenvolvimento material da humanidade, das insuficiências desse modo de viver e uma elevação do grau de conhecimento e técnica da sociedade, essa moral sucumbiu quando surgiu a propriedade privada dos meios de produção (individual) e a divisão, consequentemente, da sociedade em classes sociais.
            Um exemplo pode ilustrar. Quando os invasores portugueses chegaram ao Brasil no sec XVI tentaram subornar os indígenas pra que eles lhes entregassem as riquezas naturais. Ofereceram várias iguarias vendidas em Portugal e absolutamente inúteis para os nativos. Mas como muitos eram de cunho ornamental, os indígenas as aceitaram sem a menor noção que isso era em troca de outra coisa. Eles entenderam que podiam viver e dividir suas terras com os portugueses. Quando perceberam que se tratava de um roubo de suas riquezas e escravização eles resistiram bravamente pois seu 'espirito' comunitário se opunha aos interesses dos europeus.
            Diferentemente do que afirmavam, portanto, os pensadores, não existe na natureza humana um propriedade ABSOLUTA que explique a corrupção. A corrupção tem sua história e não passa de um mito ela estar marcada no homem. O que de fato existe é o egoísmo e individualismo, por um lado, e o sentimento de solidariedade e espirito coletivo, do outro. Em cada momento da história da sociedade, um prevaleceu sobre o outro. No caso da nossa história, ao surgir há milhares de anos atrás, a propriedade privada dos meios de produção fez prevalecer os mesquinhos interesses individuais sobre os demais. De lá pra cá, a corrupção mudou de forma, mas seu conteúdo é o mesmo: o frio interesse dos exploradores.
            Por outro lado, a corrupção não é apenas factual, ela depende necessariamente dos fins sociais e históricos do 'ATO' realizado.  Como não existe nenhuma MORAL acima da sociedade e das classes, a CORRUPÇÃO também não está. Toda Moral é resultante das relações econômicas, independente da vontade humana. É parte da superestrutura Política, Ideológica e Jurídica, é sustentada por uma base material.  Logo, não se separa do ATO MORAL4 o fato dos objetivos (fins), pois ela se assenta numa condição historicamente determinada pelo desenvolvimento da vida material da sociedade. NÃO EXISTE MORAL ETERNA NEM IMUTAVEL, NEM COMUM A TODOS OS POVOS E SOCIEDADES.
            Assim, a corrupção é inerente ao desenvolvimento social e somente se justifica com o individualismo, pois corromper ou ser corrompido significa se beneficiar ou beneficiar terceiros sobre os demais. Só existe porque a base material que sustenta essa moral é a exploração de uma maioria por uma minoria. Seus fins são individuais e, portanto, só serão condenáveis se atenderem a interesses particulares ou de grupos, e/ou atrasarem o progresso social.
            Um outro exemplo esclarece. O presidente norte-americano Abraham Lincoln utilizou todos os expedientes para conseguir aprovar a lei que acabava com a escravidão nos Estados Unidos. Em virtude do Parlamento ser absolutamente corrupto, ele subornou e distribuiu cargos para garantir o direito aos negros. Não por uma bondade excepcional, mas pelo compromisso politico que havia anteriormente assumido com os negros que lutavam nas trincheiras contra a Confederação durante a Guerra Civil. Sabia ele que, caso terminasse a guerra e os negros continuassem escravos seu governo tornar-se-ia insustentável e as rebeliões se expandiriam. Contudo, Lincoln não passou para a história como corrupto, mas como o mais importante estadista da História dos Estados Unidos, sendo assassinado por um reacionário escravista em virtude da escolha que tomou.

MORAL BURGUESA OU MORAL PROLETÁRIA

            Na sociedade atual, a moral predominante é a burguesa. Lenin resume assim a essência  dessa concepção:
            “ou saqueia teu próximo ou este saqueia a ti; ou trabalhas para alguém ou esse             alguém trabalha para ti; ou és dono de escravos ou és escravo”
            Toda ela está submetida ao lucro e exploração. Tudo se pode pela lucratividade! Não importa quanto mal possa causar. Obvio que sem essa moral, os capitalistas não submeteriam os trabalhadores a jornadas estafantes e salários miseráveis. Aos trabalhadores cabe seguir trabalhando, pensando em si mesmo e na sua família, servindo ao patrão para 'crescer' e bem viver. O individualismo é, portanto, sua realização plena, pedra angular dessa moral.
            Tal característica é absolutamente aceita pelos liberais, pois, 'em virtude das pessoas pensarem em si mesmas por sua natureza', para eles, cada um pensando em si, lutando pelos seus próprios interesses resultara no desenvolvimento comum. Lutar contra essa concepção é lutar contra a própria natureza humana.
            A corrupção passa, assim, a ser algo puramente normal embora inaceitável nos discursos. É real, mas não ideal. O mundo corporativo é prova inconteste. As grandes empresas subornam, especulam, mentem, transgridem, enfim, utilizam todo e qualquer expediente na luta pela conquista do mercado. Não importa o que isso venha causar. Se contestarem, afirmam os executivos “é o mercado, o que se há de fazer?”. A corrupção no poder público não passa de uma extensão do mundo empresarial, pois os recursos do Estado estão submetidos à lógica econômica capitalista. Exatamente por isso, sucedem os políticos, mas a corrupção é a mesma. Não basta para acabar com a corrupção mudar os atores, é preciso mudar o sistema social que, permanentemente, gera a corrupção.
            Mas alguém poderia perguntar: se é tão normal porque todos não aceitam a corrupção? Porque há um rechaço geral a prática da corrupção? Primeiro, em geral, se nega apenas a corrupção no Poder Público, pois no mercado privado é aceitável e louvável. Se para ganhar um negócio se oferecer uma comissão maior, o capitalista mais ‘animal’ ganha, e outro perde. Não será isso corrupção? Mas, se essa comissão vem do poder público, ela é condenável. De fato é! Pois o gestor ou político não pode se beneficiar do cargo para fins particulares. Segundo, porque existe uma disputa entre o progresso e atraso, o velho e novo. Nossa civilização possui necessidade de avanços sociais, e a corrupção é um fenômeno social que a atrasa, que imperra o desenvolvimento social. Embora nenhum país capitalista tenha acabado (nem acabará enquanto houver capitalismo) com a corrupção, é notório as diversas conquistas sociais que trazem um combate mais tenaz à tal prática na gestão dos recursos públicos.
Equivocadamente, vários setores elitizados da sociedade brasileira apresentaram o seguinte remédio: reduzir os recursos do Estado, enxugar o Serviço Publico, dinamizar assim a economia e impedir a corrupção. Uma conclusão de cabeça pra baixo! Na realidade, é preciso, pelo contrário, socializar toda a riqueza, estatizar a economia, ampliar os investimentos públicos, estabelecer o controle de todos os recursos sob uma nova MORAL: A MORAL PROLETÁRIA. Esta, oposta à Moral Burguesa, capitalista e individualista. Uma MORAL mais avançada, progressista e revolucionária. Mudar toda base material que sustenta a corrupção é modificar a realização da Moral burguesa na Política.
            Por fim, é possível com o avanço da sociedade após a uma revolução profunda no modo de produção atual, o predomínio de um nova MORAL que impeça o individualismo e a CORRUPÇÃO, como bem afirmou o filosofo espanhol Adolfo Sanchez Vasque5:
“Uma nova vida econômica, sem alienação do produtor e do consumidor, porque produção e consumo estão a serviço do homem, torna-se assim condição necessária – ainda que não suficiente – para uma moral superior, na qual o bem de cada um se combine com o bem da comunidade”.
           
1 - John Emerich Edward Dalberg-Acton, 1º barão Acton, (18341902), foi um historiador britânico. No pensamento de Lord Acton, o processo histórico desenvolve-se orientado pela liberdade humana ou livre-arbítrio, no sentido de uma liberdade cada vez maior. A defesa desta última é um imperativo moral: se o poder político se arroga o direito de comandar os atos dos homens, ele os priva de sua responsabilidade.
2 - Nicolau Maquiavel (1469  1527) foi um historiador,  poeta,  diplomata  e  músico  italiano  do  Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna;
3 – No primitivismo os indivíduos serviam ao coletivo, de forma quase exclusiva. Se submetiam aos ditames do líder espiritual e seu papel era defender com sua vida a existência da comunidade. Não tinha, assim, uma vontade individual;
4 – É a forma da realização da moral. Só existe ato moral se for pelo exercício vontade humana. Consuma-se no resultado, ou seja, na realização ou concretização do fim desejado. É a através do estudo do ATO MORAL que  as diversas correntes ÉTICAS estabelecem seus conceitos;

5 - Adolfo Sánchez Vázquez foi um filósofo, professor e escritor espanhol. Viveu exilado no México. Nasceu em Algeciras, Província de Cádiz. É reconhecido com um dos maiores filósofos do campo da ÉTICA.

*Artigo publicado no jornal A VERDADE em maio de 2015

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Eduardo Cunha e a mediocridade do legislativo brasileiro

Cunha e empresários, uma aliança que deu certo

"Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder". 
Carlos Drummond de Andrade

            Todos esperamos a cassação de Eduardo Cunha. Isso é um fato inegável. Nesse dia 12, porém, haverá 2 histórias para contar: a primeira é como Cunha chegou tão longe e segundo, quão desmoralizado ficou o parlamento brasileiro após esse período nefasto desde sua eleição para presidente da Câmara dos Deputados. Ambas podem ser contadas independentes da votação.
                Alguns tendem a achar que a culpa de Cunha é compartilhada pelos seus eleitores, os quais o levaram onde ele chegou. Essa opinião é superficial se não se levar em consideração com funciona nosso amputado e hipócrita sistema político-eleitoral. O legislativo, em todos os níveis, não tem uma eleição democrática. Só há uma aparência de democrática. Primeiramente porque as candidaturas não possuem condições iguais de disputar e, sendo, assim, a eleição é reflexo da profunda injustiça e desigualdade existente na sociedade. Segundo, porque cada vez mais nossa sociedade retrógrada volta à velha forma ‘estamental’ e patrimonialista, no qual a política é uma questão de ‘berço’. Terceiro, pelo total domínio do capital no atual processo de decisões políticas, tendo o lobby empresarial e agrário imposições que, mesmo se tentando fugir, não existe saída.
                Ora, Eduardo Cunha, mesmo uma caricatura mal-cheirosa desse sistema representativo nefasto e sua prática de chantagens e achaques explícitos, não é uma exceção. A regra é o completo controle das corporações, monopólios, sindicatos capitalistas, enfim, daqueles que detém o poder econômico. Cunha era o fiel representante dos banqueiros, entre os quais, Andre Esteves, dono do BTG Pactual. Fiel também aos ruralistas, industriais, empresários de planos de saúde e telefonia. É mais um de muitos que não são eleitos, mas compram seu mandato com recursos de terceiros, investimento que tende a retornar para seus proprietários com uma enorme lucratividade.
                É por isso que ele chegou tão longe. Nunca foi alguém querido ou admirado, mas sempre defendeu com unhas e dentes o lobby dentro do parlamento. Sua passagem que será esquecida rapidamente põe a nu nossa lástima chamada democracia. Sem Eduardo Cunha é um fato que a Câmara dos Deputados põe um pouco de desinfetante no plenário, mas, de nenhuma forma, resolve a fétida e medíocre realidade do legislativo. 

domingo, 11 de setembro de 2016

MILITARIZAÇÃO DA POLÍTICA É UMA REALIDADE INCONVENIENTE?

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.

Foto de membros do Tenentismo, último movimento nacionalista
que morreu com a ditadura militar.


Todos nós em algum momento, tomados pelo medo ou pela insegurança, agimos ou agiremos instintivamente. É necessário, no entanto, compreender nossos próprios sentimentos e tentar controlá-los. Ao transpor à vida política o temor individual e coletivo, o perigo se torna muito maior, pois a mobilização social dela resultante poderá causar grandes males. Mais do que isso: explorar esse sentimento sem explicá-lo é também absurdo e autodestrutivo.
Um exemplo do medo e inseguranças sociais aliado à vida política é a quantidade de policiais civis, militares e federais eleitos pelo país. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2014 eles conquistaram 55 cadeiras nas assembléias estaduais e na Câmara Federal. No Ceará, no próximo dia 2 de outubro 196 policiais ou ex-militares disputarão vagas de vereadores em todo o estado. Policiais disputarão prefeituras em Fortaleza, Rio de Janeiro, Belém e Goiânia. Fora isso, militares recolhem assinaturas para formalizar o Partido Militar do Brasil.
Dizem alguns que esse movimento também ocorre com a desmoralização dos partidos corruptos. Sem dúvida há uma influencia nisso. Ou será que a academia militar se transformou num celeiro de novos políticos e gestores públicos?
Dois problemas fundamentais nascem disso: 1) um movimento político desse tipo é diferente dos demais na medida em que seus representantes e sua base social estão armados; 2) uma ideologia propriamente militar nacionalista que embalou outros movimentos no passado não existe mais desde as reformas promovidas na educação militar durante a ditadura. O que resta agora é um arremedo de neoliberalismo sub – estatista aliado a um pseudo-moralismo cristão, bastante parecido, embora com nova roupagem, do fascismo europeu.
Entretanto, é muito inconveniente, mesmo numa democracia tão falsa como a nossa, a política ser espaço para um discurso autoritário escondido sob uma falaciosa base moral. Prestemos bastante atenção, não nos enganemos. Nada é por acaso!

sábado, 10 de setembro de 2016

DE VOLTA AO PASSADO - 100 ANOS EM 10 DIAS!

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente...”
Resultado de imagem para luta por jornada de 8 horas 
Manifestação em Chicago, reivindicando jornada de 8 horas


                Em 10 dias de governo, o golpista Michel Temer e seu ministros mostraram a que vieram: um duro ataque à legislação trabalhista. Afirmam modernizar e flexibilizar as relações de trabalho.
 Primeiro, modernizar, um verbo transitivo direto, significa segundo o dicionário Aurélio, “acompanhar as tendências do mundo atual”, “efetuar mudanças, substituindo sistemas, métodos antigos por outros novos”. Bem, está claro que há de fato uma tendência a ataques aos direitos trabalhistas, da França aos EUA, passando por toda a América Latina. É bom lembrar, que a Jornada de Trabalho de 12h já existiu no século XIX, logo não tem nada de novidade. Fora isso, nenhuma tendência é neutra e ela, no momento atual, é resultado da profunda crise vivida pelo sistema capitalista desde 2008. Sempre, quando baixa a rentabilidade do capital, os empresários atacam duramente a remuneração e os direitos dos trabalhadores.
Segundo, flexibilizar para o dicionário Aurélio, significa “afrouxar”, “tornar maleável”. Aqui, significa que as relações de trabalho tornar-se-ão menos ‘rígidas’. Ora, os direitos conquistados pelos trabalhadores não endurecem as relações de trabalho, pelo contrário, ajudam os capitalistas a explorar a baratissima mão-de-obra dos brasileiros. Mas, não basta! O capital, sedento por alta rentabilidade, não tem limites.
Ampliar a jornada é reduzir o pagamento de horas-extras e, segundo outra proposta, pagar por hora trabalhada, é contratar e demitir aleatoriamente, enfraquecendo, inclusive, a representação dos trabalhadores. O sistema de pagamentos por hora existe nos EUA e é acompanhada por uma remuneração 4 vezes maior do que no Brasil fora que lá existem sindicatos muito mais fortes. Agora, eles querem modificar essa ‘tendência’ por lá, garantindo mais segurança e impedindo as demissões.

Vivemos aqui um retorno ao passado longínquo. Os trabalhadores podem ter um imenso retrocesso, rápido e mortal. Essas duas propostas, ampliação de jornada e contrato por hora trabalhada, significam um ataque frontal, absurdo e autoritário às conquistas do povo brasileiro. Sejamos realistas: já é hora de uma verdadeira revolta contra essas medidas. Tomara que nos próximos 100 dias o golpista ministro do trabalho não queira revogar a Lei Áurea e retornar mais 100 anos na nossa história.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O DESFILE DO DIA 7 QUE TEMER NÃO VIU PASSAR!!

                      

        O 7 de setembro nunca foi tão bem comemorado. As ruas ficaram cobertas de vermelho, verde e amarelo, numa demonstração de que o povo brasileiro continua, a exemplo de sua história, disposto a enfrentar os desafios de um país mais justo e igual.
É verdade que vivemos um golpe parlamentar promovido por um grupo de bandidos de paletó apoiados pelos grandes sindicatos empresariais, ruralistas e a rede globo de televisão. É verdade também que os erros que foram cometidos não devem se repetir. Não é possível confiar em quem usa e abusa do Estado para manter e ampliar seus privilégios. São dias difíceis, talvez meses difíceis.
 Os golpes desde a proclamação da nossa república comprovam que as elites não se contentarão com um pouco mais de justiça social. Não seria de se esperar outra coisa. Ficaram contra a escravidão quando esta amputava a sociedade brasileira. Foram contra a Consolidação das Leis Trabalhistas quando os trabalhadores amargavam quase nenhum direito. Foram contra as Reformas Agrária, Urbana e Educacional e depuseram um governo legitimo em 1964. A história parece realmente ‘um museu de grande novidades’!
Temer hoje carrega o que existe de mais retrogrado na sociedade brasileira: a marca do golpismo. Tudo para ampliar a rentabilidade dos multimilionários que sempre estiveram no poder e manter intactos os privilégios à custa do sofrimento da imensa maioria do povo. Seu governo não passa de uma farsa: ministros acusados de corrupção, equipe econômica controlada por banqueiros e diplomacia submissa aos interesses do império norte-americano. Ao mesmo tempo, a justiça continua, como sempre, cega e o silencio paira no mais massivo aparato de controle social que o Brasil já viu: a rede Globo.
A esperança está perdida? Certamente não. As ruas se enchem de novo, já não se pode parar. Andamos para frente e não para trás. Fechemos um acordo: se não podemos com eles, fiquemos mais fortes e venceremos. Não recuaremos. Nem um tantinho assim...